
Desenhos
Até o momento, o público só conhecia as pinturas de Ramonn Vieitez. Telas com cores, contextos, óleo, pop, guache, aquarela, melancolia, violência, beleza, florestas, cidades pichadas, rapazes com máscaras, facas, folhas de ouro, paredes pretas…Vida contemporânea, informação.
June 8, 2018


Até o momento, o público só conhecia as pinturas de Ramonn Vieitez. Telas com cores, contextos, óleo, pop, guache, aquarela, melancolia, violência, beleza, florestas, cidades pichadas, rapazes com máscaras, facas, folhas de ouro, paredes pretas… Vida contemporânea, informação.
Uma chave criativa virou e essa é a primeira vez que o artista expõe seus desenhos. Lápis negro sobre papel. Mais nada. E foi exatamente para dar um respiro dos pincéis, que Ramonn começou a experimentar com o lápis. Mas o desenho é o inconsciente da pintura: se dela fugimos, para sua essência voltamos. É como quem se obriga a acordar de um pesadelo e, na noite seguinte, tem o mesmo sonho de novo. Pulsão. Antes de pintar, Vieitez sempre desenha as linhas fundamentais. Porém, nunca havia exposto seus desenhos como produtos finais.
Vemos jovens rapazes. Sim, eles ainda são os protagonistas das criações. Porém, agora estão desprovidos de cenário, de vestuário, de corpo. Vemos só o rosto. E Ramonn não nos dá outras pistas: é só olho no olho. Às vezes, eles estão nos olhando de volta. É sobre ser provocado. Mas, outras vezes, apenas olham para o nada, pro lado, pra baixo. É sobre ser ignorado. E, quando não nos encaram de volta, duvidamos da nossa própria presença ali. Em suma, estamos diante das duas faces da juventude: provocação irresistível ou indiferença calculada.
É esse ar de rebeldia que parece passar pelos lábios entreabertos dos personagens, nos seduzindo de maneira tão sensorial. Pode ser que a boca esteja abrindo para soltar um “tá olhando o quê?”. Mas pode ser que a boca se abra para dizer: “chega mais perto, vem mesmo me ver”. Embora seja “só” grafite preto em papel branco — sem textura, sem esfumaçado, sem truques rebuscados, transparece a pele, a temperatura, o temperamento, desses garotos.
Ramonn conhece todos. Mas nenhum deles posou como seu modelo-vivo. O artista se sentiria incomodado em se expor desse jeito para alguém — ele confessou. Ironia de quem, mesmo não mostrando corpos, desnuda seus personagens. Dos vinte trabalhos expostos, apenas um configura um corpo. E ele se chama “Sombra”. Porque é justamente no movimento anatômico e nas variações de luz que se revela nuances, se cria relevos. É no jogo de mostra/esconde que se constrói o desejo.
A aparente estática dos desenhos também é quebrada quando eles são expostos em sequência. “Distante 1, 2 e 3 (Retrato de Jeremy Abbott)” e o díptico “Sem título” fazem parecer que os personagens estão se movimentando para que nós vejamos diferentes ângulos de suas fisionomias. São exibicionistas ou é a gente que sempre quer reparar mais?
Entre os anônimos rapazes “sem título”, um jovem Chico Buarque. Desenho encomendado, que compartilha da beleza rebelde, da atitude punk-sedutora e da poética-transgressora de todos os outros. E, além de “Ton”, também recebem nomes: “No teu rosto”, “Noite”,

