CRÔNICAS DE PARATY: O Mastro do Divino

#5 CRÔNICAS DE PARATY: O Mastro do Divino

Zezito Freire


A cerimônia do levantamento do mastro, no Domingo de Páscoa, que anunciava a Festa do Divino Espírito Santo, tinha uma pompa que, ano após ano, vai se perdendo, pela falta de maior interesse da comunidade, ou por que outros costumes de mostrar a fé, menos penosos, foram surgindo e compreendidos.

O mastro de então, até a década de 40, possivelmente, até uns anos mais, era bem maior do que o atual, e a sua procissão era das mais concorridas, pois, o número dos que se dispunham à penitência de carregá-lo era tal que, para que todos pudessem dela participar, paus roliços eram atravessados por baixo do madeiro e, assim, com duas pessoas de cada lado, dobrava o número daqueles que o levantavam, suportando melhor o seu peso.

O seu comprimento era tal, que na Igreja Matriz não havia onde guardá-lo. Geralmente ele ficava no acréscimo lateral da Igreja do Rosário ou no anexo das catacumbas da igreja de Santa Rita.

Com o acompanhamento da folia e da banda de música, a procissão percorria o itinerário que, então, era o costumeiro: saída da igreja matriz, seguindo pela Rua Marechal Deodoro, Rua Tenente Francisco Antônio, Santa Rita, Dona Geralda, retornando à frente da matriz pela rua que fica entre o jardim e o atual estacionamento.

O trajeto era percorrido vagarosamente, para que os carregadores pudessem fazer os constantes revezamentos, de forma a que todos os penitentes pudessem pagar a promessa feita.

Foto: autor desconhecido

O povo assistia o penoso trabalho daqueles que se incumbiam da tarefa com natural receio, as mães procurando manter os filhos a uma distância segura, para o caso de algum contratempo, que não consta jamais haver ocorrido.

Tudo era feito ao som dos dobrados que a banda de música executava, do canto da folia, e do espocar dos foguetes.

Depois, vinha o trabalho de aprumá-lo, quando entrava em cena o mestre Bibiano, postado no canto do terreno do basquete, tirando sua visada pela frente fronteiriça da igreja e, com a segurança de quem entendia do assunto, ia dando suas diretrizes pelos gestos que fazia com seus longos braços, falando com seu vozeirão: mais, mais! Mais menos! O que correspondia a alinhar um pouco mais à esquerda ou à direita.

Naqueles tempos em que a cidade não contava com maiores novidades, o domingo do levantamento do mastro, além de ser ocasião de demonstrar a fé, era um dia especialmente festivo.


Paraty, 06/07/1998


Retirado do livro “Crônicas de Paraty” 2009, de Zezito Freire.

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