CRÔNICAS DE PARATY: Missa Divino Espírito Santo

#7 CRÔNICAS DE PARATY: Missa Divino Espírito Santo

Zezito Freire


A banda de música deixava o cortejo na porta da igreja matriz e, tão ligeiro quanto podiam, os músicos subiam a escadaria que dá acesso ao coro. Tinham que chegar a tempo de afinar os instrumentos pelo violino do Mestre Ditinho, a fim de que, na acústica do suntuoso templo, o som da orquestra soasse harmônico, acentuando a beleza da Missa Brilhante, composição do Maestro Teotônio Francisco da Silva especialmente para o repertório da Lira da Juventude e seu coral.

acervo: João Apolônio dos Santos Pádua Neto

No coro já estavam as cantoras e Mestre João Costa, encarregado da regência. Como sempre, abdicaram do prazer de acompanhar a bela procissão de sábado, na transladação da imagem em seu andar ricamente adornado, da igreja de Santa Rita para matriz, para subir ao coro com vagar e tempo, evitando, assim, que a respiração ofegante desvirtuasse o canto.

Como recompensa, da sacada da igreja tinham o privilégio da visão do cortejo desde sua entrada na Praça da Matriz até a sua chegada na igreja.

Do domingo, a procissão engalanada pelas bandeiras vermelhas desfilava ao som dos dobrados executados pela Lira da Juventude ou pelo toque da folia e a cantoria dos foliões, acompanhando o Imperador, ladeado por seus pajens e vassalos, vestidos com luxo e bom gosto. Carregavam o Cetro, a Coroa e a Salva de Prata e os demais símbolos da nobreza que prestava homenagem e louvação ao Divino Espírito Santo.

Os três sinos da igreja repicavam em conjunto, os foguetes de flecha subiam para espocar nas alturas e o cortejo adentrava ao templo. As bandeiras eram colocadas nas panóplias lá colocadas e o Imperador sentava-se no trono adrede preparado.

A soleníssima missa tinha início com a igreja cheia, as folhas de caneleira espalhadas pela nave exalando seu perfume suave, agradável, complementando os adornos de cor vermelha que enfeitavam o templo.

A orquestra e o coral davam início ao Kyrie, peça plena de sentimento, pedindo piedade ao Senhor. Depois entoavam o Glória, vibrante, para louvar o Criador com alegria, os clarinetes, enfeitando a música nas corridas das semicolcheias.

Então Padre Hélio, após cantar o trecho do Evangelho, subia ao púlpito para o sermão alusivo ao evento, com palavras carregadas de emoção e o povo, em respeitoso silêncio, bebia as palavras que o padre dizia.

Em seguida a orquestra e o coral entoavam o Credo, ramo longo, de difícil execução, com os clarinetes fazendo arpejos durante todo o canto, o pistom fazendo o fundo musical em surdina, para mais salientar os solos de flauta e do violino que acompanhavam o coral, quando Mestre João Costa, com sua voz de barítono, juntava a regência ao canto.

Enquanto o padre e seus acólitos seguiam o rito que precedia a Consagração, do coro se ouvia o Sanctus. Na Consagração da Hóstia a orquestra executava o Hino Nacional e, em seguida, orquestra e coral entoavam o Agnus Dei.

Depois da Comunhão geral e da benção, era cantada a Jaculatória. A missa começara às 10 horas e os fiéis deixavam a igreja quando já passava do meio-dia.

Mesmo quando existiam as várias irmandades e elas organizavam as festas em louvor aos seus santos padroeiros, a festa do Divino sempre foi realizada pelo festeiro/a-encarregado.

Assim tem sido, assim continua sendo. Anos após anos, sempre com muito brilho, com muita fé.

Paraty, 13 de maio de 2002

Retirado do livro “Crônicas de Paraty” 2009, de Zezito Freire.

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